Para organização, serras e patrimônios do quadrilátero ferrífero carecem de cuidado, proteção e planejamento

O distrito de Nova Lima (MG), Macacos, é cercado por sete barragens, uma delas está em alerta nível 3, o que indica risco alto de rompimento – Foto: ©Arquivo da Comunidade / publicação autorizada

 

As fortes chuvas em Minas Gerais, nessa primeira semana de janeiro de 2022, expuseram situações trágicas. Em Capitólio (MG), houve o desabamento do paredão de rocha, causando 10 vítimas fatais. E em todo o estado, há barragens com risco de rompimento.

Em reação a esse cenário, o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), que existe há mais de 100 anos, lançou uma nota, divulgada na segunda-feira (10), lamentando os problemas no estado. No texto, chamam atenção para a falta de políticas.

“A tragédia em Capitólio é de outro espectro, mas da mesma ordem predatória do território. Nos falta cuidado, discernimento, escolhas justas, diretrizes claras. Nos falta bom senso e nos falta, principalmente, governo. O simulacro que hoje temos não cuida, não protege, não planeja, não confia nos especialistas, não toma providências”, diz o texto.

Confira na íntegra:

NOTA DO IAB

As chuvas intensas em Minas Gerais põem a nu a tragédia anunciada pela mineração no quadrilátero chamado de ferrífero.

O perímetro do quadrilátero – para lhe fazer jus, o quadrilátero aquífero – cerca as serras do Curral, da Piedade, do Caraça, do Gandarela, de Ouro Branco, da Moeda, do Rola Moça, encosta em Belo Horizonte na face da Serra do Curral, e guarda preciosidades: cidades, igrejas, sítios arqueológicos, grutas, parques naturais, vida silvestre, casas, gentes. E água.

Guarda ainda seu maior pecado: minério. Desde a descoberta do ouro no final do século XVII, nossa riqueza é para inglês ver, é para rechear os cofres do quinto, é o minério de ferro sendo arrancado e expatriado, deixando seu rastro de crateras, águas exauridas, solo contaminado, rios mortos, famílias destroçadas.

A tragédia em Capitólio é de outro espectro, mas da mesma ordem predatória do território. Nos falta cuidado, discernimento, escolhas justas, diretrizes claras. Nos falta bom senso e nos falta, principalmente, governo. O simulacro que hoje temos não cuida, não protege, não planeja, não confia nos especialistas, não toma providências.

2022 chega com horror e tristeza. O Instituto de Arquitetos do Brasil une-se à dor das famílias atingidas por tantas tragédias.

Maria Elisa Baptista

Presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil

10/01/2022

 

Edição: Larissa Costa

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