Geisy e Emanoel é 1ª geração do quilombo Água Limpa a acessar universidade pública. Conhecimento sobre agroecologia transformou a realidade de toda a comunidade

 

Eles são a primeira geração do Quilombo Água Limpa, em Ouro Verde de Minas, no Vale do Mucuri, a atravessar os portões de uma universidade pública. Emanoel Ferreira Neto, de 27 anos, e Geicy Marinho, de 28, percorreram quase 500 km para cursar a Licenciatura em Educação do Campo, na Universidade Federal de Viçosa, na Zona da Mata. E foi justamente esse “atravessar” que mudou o destino da terra onde nasceram. Eles não saíram do campo para estudar. Fizeram o caminho inverso: estudaram para permanecer.

“Nossos pais sempre falaram que estudar era importante, mas para sair do campo, como se aqui fosse um lugar de atraso. Quando o Emanoel perdeu o pai, em 2014, e assumiu a propriedade, decidimos que queríamos ficar, mas com acesso à educação.”, diz Geicy. Ele foi o primeiro a iniciar a jornada universitária, em 2016. Dois anos depois, Geicy também conseguiu ingressar no mesmo curso.

“Estudávamos em regime de alternância. Passávamos 15 dias na universidade e depois voltávamos para o nosso território, onde ficávamos um mês ou um mês e meio aplicando, na prática, o que havíamos aprendido”, conta Emanoel, ao destacar a importância de uma educação contextualizada com a realidade de cada região.

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Foi na universidade que ouviram, pela primeira vez, o termo “agroecologia”. E só então perceberam que aquilo que os professores ensinavam já estava presente na memória dos mais velhos da comunidade, nos quintais, nas sementes guardadas em latas, no cuidado com a terra antes da chegada dos agrotóxicos. “A universidade não trouxe algo novo. Ela deu nome e método ao que nossos pais e avós já faziam”, completa Emanoel.

Para resgatar o método ancestral de manejo da terra aliado ao conhecimento técnico adquirido na universidade, foi preciso, antes de tudo, recuperar a saúde do sítio Três Corações. A propriedade carregava marcas profundas, como erosões abertas, lixo acumulado por gerações, esgoto a céu aberto e dependência total de insumos químicos.

Começaram substituindo o veneno pela compostagem e trocaram ,o adubo comprado pelo biofertilizante produzido ali mesmo. A mudança, no início, era sobre qualidade de vida. A carreira seria como professores em escolas da região,  mas o conhecimento adquirido na universidade logo mostrou outro caminho: a propriedade poderia ser também uma empresa rural.

“A gente trabalha com plantios de ciclo curto, como melancia e abóbora. Também cultivamos banana. Mas um dos nossos carros-chefe é o café orgânico que produzimos aqui: o Café de Maria”, explica Manoel.  Durante a pandemia, implantaram um sistema agroflorestal para recuperar áreas degradadas e começaram a receber visitantes, estudantes e agricultores para apreender o que é e como praticar a agroecologia. “Sem perceber, o quintal virou sala de aula. O sítio virou escola”, resume Geicy.

Emanoel e Geicy  percorreram quase 500 km para cursar a Licenciatura em Educação do Campo, na Universidade Federal de Viçosa. Foto: Geicy Marinho/ Arquivo pessoal

Fonte de Renda

Nesse período, eles também aprenderam, na prática, a transformar conhecimento em renda. Durante um ano, receberam visitantes cobrando apenas R$ 5 – praticamente pagando para trabalhar. No ano seguinte, o valor passou para R$ 15 pelo café quilombola e R$ 25 pelo almoço.

Aos poucos, as visitas também se transformaram em espaço de comercialização. Café, adubos orgânicos, biofertilizantes e o EM (microrganismos eficientes), que aprenderam a produzir na universidade, passaram a ser vendidos ali mesmo e se tornaram uma fonte importante de renda. “ Hoje, conseguimos em média entre dois e três salários mínimos mensais”, conta o casal.

O território que floresce junto

O protagonismo de Emanoel e Geicy dialoga com um movimento mais amplo em Ouro Verde de Minas, onde a agricultura familiar representa 19% do PIB municipal, segundo o Sebrae Minas. Em 2021,  a instituição  iniciou capacitações voltadas à certificação orgânica na região. Ao todo, 136 agricultores foram certificados. Dois anos depois, a criação da Feira de Produtos Agroecológicos e Orgânicos elevou em cerca de 30% a comercialização dos produtores envolvidos.

“O Sebrae entra com capacitação em gestão, inovação, tecnologia e produção. Pode ser palestra, curso, oficina, dia de campo. A gente identifica o problema: é venda? embalagem? posicionamento em rede social? precificação? E entra com a solução”, destaca  Rogério Fernandes, gerente regional do Sebrae Minas para os Vales do Aço e do Mucuri.

Inseridos nesse contexto, Emanoel e Geicy passaram a ocupar funções na cooperativa local,  na associação quilombola e no conselho de segurança alimentar. Aprenderam a elaborar projetos, captar recursos e organizar a produção. “Chegamos a reuniões sem saber dizer quantas toneladas a cooperativa produzia. Tivemos que aprender organizando”, lembra Emanoel.

O levantamento feito por eles indica que quase R$ 1 milhão já foi viabilizado para o território em projetos que garantiram veículos, equipamentos de agroindústria, a sede da cooperativa e a aprovação do primeiro projeto do Programa de Aquisição de Alimentos Orgânico do Vale do Mucuri junto à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). “A gente conseguiu acessar, para a cooperativa, chamadas do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), nas esferas municipal, estadual e federal”, destaca Emanoel.

Também mobilizaram a comunidade por saneamento básico. “Associação rural costuma pedir trator. A gente pediu fossas sépticas”, conta Geicy.  “A gente não vai transformar o mundo, mas pode transformar nossa comunidade”, diz Emanoel.

“Muitos daqui, talvez, nunca pisem em uma universidade. Então a gente traz a universidade para cá”, concluem. No Sítio Três Corações, a terra continua a mesma. O que mudou foi o olhar.

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