A disputa global pelas chamadas terras raras, minerais considerados estratégicos para a transição energética, a indústria tecnológica e o setor militar, tem acelerado o avanço de projetos minerários em Minas Gerais. Com empreendimentos bilionários concentrados sobretudo no sul do estado, empresas estrangeiras e governos passaram a enxergar o território mineiro como uma das principais apostas para ampliar a oferta desses recursos fora da China.
As terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos utilizados na fabricação de smartphones, baterias, turbinas eólicas, carros elétricos, sistemas digitais e armamentos sofisticados. Entre os materiais mais cobiçados estão os ímãs permanentes de alto desempenho, essenciais tanto para veículos elétricos quanto para equipamentos militares, como mísseis e submarinos.
Hoje, a China domina a cadeia global do setor, respondendo por cerca de 70% da mineração mundial e concentrando mais de 90% da capacidade de processamento e fabricação dos ímãs de terras raras. Diante desse cenário, Estados Unidos e União Europeia passaram a tratar o acesso a esses minerais como questão de segurança nacional, impulsionando uma busca acelerada por fornecedores alternativos.
Mas, enquanto governos e empresas tratam as terras raras como oportunidade econômica e estratégica, pesquisadores e movimentos sociais alertam para os impactos da expansão minerária sobre os territórios mineiros. Para a militante Nathália Francisco, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), o discurso da “transição energética” tem servido para legitimar a continuidade de um modelo extrativo marcado pela pressão sobre comunidades, concentração de riqueza e degradação ambiental.
“A chamada ‘mineração sustentável’ acaba por ocultar a continuidade de um modelo histórico de exploração, baseado na retirada intensiva de recursos naturais e na transferência dos impactos sociais e ambientais para os territórios atingidos”, critica Nathália Francisco em artigo produzido pelo coletivo de comunicação do MAM-MG.
O Brasil aparece como peça-chave nessa disputa internacional. O país possui a segunda maior reserva de terras raras do planeta, estimada em cerca de 25 milhões de toneladas, aproximadamente 20% das reservas globais. Apesar disso, a produção nacional ainda representa menos de 1% da oferta mundial.
Durante evento realizado em Campinas (SP), na última segunda-feira (18), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o país pretende manter o controle sobre seus recursos minerais.
“Não temos preferência por ninguém. Pode vir chinês, alemão, francês, japonês, americano. Pode vir quem quiser. Desde que tenham consciência de que o Brasil não abre mão de sua soberania”, declarou.
Mais do que extrair o minério, o principal desafio brasileiro está em dominar as etapas de beneficiamento e refino, responsáveis pela maior agregação de valor econômico e tecnológico. Lula também defendeu que a exploração siga um modelo diferente do adotado historicamente com commodities, como ouro e minério de ferro, priorizando o processamento industrial dentro do país.
Em seu discurso, Lula também destacou que pesquisadores brasileiros, especialmente do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), poderão auxiliar no mapeamento e no desenvolvimento tecnológico ligado às terras raras. “Se a gente for fazer esse estudo só cavando buraco, isso vai demorar muito. A gente vai ter que contar com inteligência, ciência e conhecimento”, afirmou.
Sul de Minas vira alvo de mineradoras estrangeiras
Em Minas Gerais, especialmente nas regiões de Poços de Caldas, Caldas e Andradas, empresas estrangeiras avançam sobre áreas consideradas estratégicas. O território está localizado sobre o Complexo Alcalino de Poços de Caldas, uma das formações geológicas mais importantes do país para ocorrência de terras raras.
Entre os principais empreendimentos está o Projeto Caldeira, da mineradora australiana Meteoric Resources, que afirma possuir mais de 1,5 bilhão de toneladas de recursos minerais e projeta transformar a região em uma das maiores minas de terras raras do mundo.
Também no sul de Minas, a australiana Viridis Mining & Minerals conduz o Projeto Colossus, apontado pela empresa como o maior recurso de terras raras magnéticas do chamado “mundo ocidental”, incluindo minerais estratégicos como disprósio e térbio.
Além da região sul, Minas Gerais também concentra projetos em Araxá, associados ao nióbio e às terras raras, e em Salinas, no Norte do estado.
A expectativa das empresas e do governo mineiro é de que os empreendimentos movimentem bilhões de reais em investimentos e ampliem a arrecadação de impostos. O governo de Minas Gerais tem apoiado o avanço do setor por meio de incentivos fiscais e da defesa de um modelo chamado de “mineração verde”.
Especialistas alertam, porém, que o estado corre o risco de repetir um padrão histórico de exportação de commodities sem industrialização local. Atualmente, o Brasil ainda depende de outros países para transformar o minério bruto em produtos de alto valor agregado, mantendo a lógica de exportação de recursos naturais com baixa incorporação tecnológica.
‘Mineração sustentável’ é questionada por movimentos sociais
Em artigo produzido por Larissa Rabelo Nunes, do MAM-MG, movimentos populares alertam que o discurso da “transição energética” tem servido para legitimar a expansão de um modelo mineral baseado na exploração intensiva dos territórios.
Segundo ela, a chamada “mineração sustentável” mascara a continuidade de práticas históricas de exploração ambiental e concentração econômica.
Entre os principais pontos de preocupação relacionados às terras raras estão os impactos sobre os recursos hídricos. A extração desses minerais exige grande volume de água, especialmente nos processos químicos de lixiviação utilizados para separar os elementos minerais.
Em regiões do sul de Minas que já convivem com períodos de escassez hídrica, moradores e organizações ambientais temem que o avanço da mineração comprometa o abastecimento humano e a agricultura.
Analistas apontam que os próprios estudos ambientais das empresas reconhecem possíveis impactos sobre a dinâmica hídrica local. Outro fator que amplia os temores é o histórico da mineração de urânio na região de Caldas, onde ainda existem passivos ambientais e rejeitos radioativos.
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O Projeto Caldeira, por exemplo, está previsto para ocorrer na zona de amortecimento da Área de Proteção Ambiental (APA) da Pedra Branca, próximo às estruturas das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), onde estão armazenadas cerca de 12 milhões de toneladas de rejeitos radioativos em processo de descomissionamento.
Já o Projeto Colossus prevê estruturas minerárias muito próximas de áreas urbanas densamente povoadas em Poços de Caldas. Segundo informações do MAM-MG, áreas de cava, pilhas de rejeito e unidades de tratamento mineral estariam previstas a menos de 300 metros de conjuntos habitacionais populares, além de proximidade com hospital, escolas, creches e centros de atendimento de idosos.
Moradores relatam medo, insegurança e adoecimento emocional diante da possibilidade de convivência direta com estruturas de mineração.
Experiência do Vale do Jequitinhonha acende alerta
Os impactos recentes da mineração de minerais críticos em Minas Gerais também passaram a servir de alerta para comunidades do Sul do estado.
Em março deste ano, a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais realizou uma fiscalização no Vale do Jequitinhonha para investigar denúncias envolvendo o projeto de lítio Grota do Cirilo, da multinacional canadense Sigma Lithium, nos municípios de Itinga e Araçuaí.
Durante a visita, a deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT) relatou ter identificado possíveis crimes ambientais, intimidações contra moradores e obstáculos à atuação da comissão parlamentar.
Segundo denúncias registradas durante a fiscalização, parte de uma pilha de rejeitos teria desabado após fortes chuvas, atingindo o leito do Rio Piauí, afluente do Rio Jequitinhonha. Moradores também denunciaram rachaduras em casas provocadas por explosões, poluição do ar, insegurança constante e restrições de circulação em áreas cercadas pela mineração.
A agricultora Paloma Pessoa Souza, moradora da região, afirmou que sua família passou a depender de autorização da mineradora até para receber visitas em casa. “Vivemos mesmo é numa prisão”, relatou durante a fiscalização.
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Para movimentos sociais e ambientalistas, a experiência do Jequitinhonha exemplifica os possíveis efeitos da expansão da mineração de minerais críticos em outras regiões de Minas Gerais.
Minas Gerais na rota da disputa entre EUA e China
O avanço das terras raras em Minas também evidencia uma disputa internacional cada vez mais intensa. Os Estados Unidos têm ampliado investimentos em projetos minerais fora da China como forma de reduzir a dependência do mercado chinês. Agências ligadas ao governo norte-americano e empresas privadas apoiadas pela Casa Branca passaram a negociar aportes milionários em empreendimentos brasileiros.
Ao mesmo tempo, a China busca preservar sua influência sobre a cadeia global de suprimentos e ampliar investimentos no setor mineral brasileiro.
Diante desse cenário, o governo Lula tem defendido uma posição de “não alinhamento ativo”, buscando atrair investimentos estrangeiros sem se vincular exclusivamente a nenhum bloco geopolítico.

