Povo Borum-Kren repudia ataques racistas a Deputada Federal Célia Xakriabá

06/03/2023

Povo Borum-Kren, Ouro Preto/MG

Nota de Repúdio

No dia 4/03/2023, a parente, Célia Xakriabá, com suas companheiras de mandato e também indígenas, estiveram em Ouro Preto, participando de duas agendas, uma na Mina Du Veloso e outra no Museu Boulieu. Em ambos momentos, o principal assunto foi a violência que os povos indígenas e negros vêm sofrendo, no Brasil e em outros países, desde que o povo da Europa chegou aqui, em Pindorama, e a outros pontos deste continente, que ficou conhecido como América. O debate passou pelas diversas formas de violência a que estão sujeitos estes povos, incluindo as diversas formas de racismo, como por exemplo o racismo ambiental, que faz com que os grandes prejudicados por eventos climáticos e por mineradoras sejam os indígenas e os negros. Aqui em Ouro Preto, por exemplo, o avanço das mineradoras se concentra justamente no território que habitamos desde tempos imemoriais, havendo, para isso, grande omissão dos poderes constituídos, nas três esferas federativas, que nem sequer fazem o reconhecimento arqueológico desta região.

Após o longo dia de debate, quando as parentes visitantes já se preparavam para descansar, foram elas próprias vítimas do racismo, por parte de um grupo de bolsonaristas, que estava no mesmo restaurante onde fariam uma refeição. Estes questionaram a presença das indígenas naquele estabelecimento, como se não tivessem o direito de estar ali. As parentes foram prontamente amparadas pela dona do estabelecimento, a qual agradecemos. Nós, assim como outras pessoas de vários movimentos sociais locais, nos dirigimos imediatamente para o local, para prestar solidariedade e a assistência que fosse necessária.

O Povo Borum-kren vem por meio desta Nota expressar nosso repúdio aos ataques racistas dos quais a nossa parentíssima Deputada Federal Célia Xakriabá e sua assessoria, composta também por mulheres Indígenas, sofreram aqui, em nosso território. Cada vez que um de nós é ameaçado, todos somos ameaçados, porque a luta Indígena é pela vida. O lugar e a vestimenta do povo indígena são os que ele escolher.

Ouro Preto não foi sempre marcada pela busca por ouro. Anterior à chegada dos colonizadores, nosso povo vivia nas matas e no leito dos rios, sem jamais contaminar a água
ou derrubar montanhas. No momento em que o pensamento colonizador aqui chegou, abrindo veios na busca do ouro, deu-se início às feridas que ainda estão abertas em nosso corpo-território. O silenciamento ao qual nossos antepassados foram submetidos foi extremamente cruel: a forca. Muitas cabeças rolaram para que os “antigos”, e seus corpos calados, viessem _ por amor aos seus filhos _ passarem a não se identificarem como Indígenas. É por causa desse processo de ruptura identitária forçada e, paradoxalmente, ao mesmo tempo, graças a ela, que estamos hoje vivos e fortes aqui.

Não permitiremos que crimes de racismo sigam acontecendo em nossas terras, a estratégia de
luta que no passado fora o silêncio, hoje é a canetada! Racistas não passarão !

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