Qual a diferença entre os quilombos rurais e urbanos, que somam 1,3 milhão de descendentes no Brasil

20/11/2023

Por Pedro Emerenciano*, g1 Zona da Mata — Juiz de Fora

Fonte:https://g1.globo.com/google/amp/mg/zona-da-mata/noticia/2023/11/20/qual-a-diferenca-entre-os-quilombos-rurais-e-urbanos-que-somam-13-milhao-de-descendentes-no-brasil.ghtml

Quilombolas moradores de Alagoas, foto de arquivo  — Foto: Reprodução/TV Gazeta

Quilombolas moradores de Alagoas, foto de arquivo — Foto: Reprodução/TV Gazeta

O g1 produziu uma reportagem especial para o Dia da Consciência Negra, celebrado nesta segunda-feira (20), explicando os principais pontos de convergência e divergência entre os tipos de quilombos.

 

Com mais de 1,3 milhão de habitantes espalhados pelo Brasil, sendo mais de 5 mil deles na Zona da Mata mineira, os quilombos buscam sobreviver à urbanização e ao apagamento histórico da cultura afro-brasileira.

Os quilombolas são grupos sociais com uma identidade étnica que os distingue do restante da sociedade, em relação à ancestralidade comum, formas de organização política e social, elementos linguísticos, religiosos e culturais.

O g1 produziu uma reportagem especial para o Dia da Consciência Negra, celebrado nesta segunda-feira (20), explicando os principais pontos de convergência e divergência entre os quilombos rurais e urbanos no Brasil.

 

Urbanos

 

Para a doutora em antropologia Beatriz Accioly, a principal diferença entre os quilombos rurais e urbanos é o espaço geográfico em que estão. Segundo ela, esse é um fator determinante para que a economia e a cultura sejam divergentes.

 

“Basicamente, ele está na cidade por algum motivo. Pode ser, por exemplo, que o quilombo já existisse ali, e a região foi se tornando aos poucos uma cidade. E aí o quilombo acaba ficando no meio da cidade”, explica ela sobre os quilombos urbanos.

Quilombo Namastê em Ubá — Foto: Saberes Tradicionais da UFMG/Divulgação

Quilombo Namastê em Ubá — Foto: Saberes Tradicionais da UFMG/Divulgação

No Brasil, inúmeras comunidades quilombolas se encontram estabelecidas em cidades e áreas urbanizadas. Em alguns casos, surgem de maneira natural à medida que a urbanização se expande ao redor de locais historicamente associados à resistência negra.

A especialista cita o exemplo da comunidade Manzo Ngunzo Kaiango, em Belo Horizonte, que se autodeclara como quilombola, sido fundada na década de 1970 por yalorixá Efigênia. O grupo é sustentado pelas práticas sociais e culturais que se centralizam na religiosidade de matriz africana, que é compartilhada entre os membros.

Em Ubá, a Comunidade Namastê é liderada pela mestra dos saberes tradicionais Maria Luiza Marcelino. Por lá, parte das ações do quilombo são atualmente fundamentadas por um terreiro de Umbanda.

 

“O quilombo e o terreiro estão interligados, mas o nascimento do quilombo antecede o do terreiro. Entretanto, as práticas de terreiro no quilombo e na família de Luiza são anteriores ao próprio terreiro como esse espaço que se cultua a umbanda lá”, ressalta o mestre em antropologia Matheus da Rocha Viana, que estudou a comunidade.

 

O grupo surgiu em 1836, como conta Maria Luiza, com escravos da Fazenda da Liberdade. O espaço foi ganhando novos habitantes e, mais de um século depois, transformou-se em um bairro — levando à perda do senso de comunidade e parte da ancestralidade que os unia.

 

Com isso, não é possível dizer que existam somente quilombolas ou descendentes no território. Muitos dos nativos de lá, inclusive, também foram deixando o local ao longo dos anos.

Para Maria Luiza, o local urbano tira a individualidade das ações de políticas públicas, tornando-se um novo desafio.

 

“Temos uma escola, um poço, estamos fazendo uma creche dentro do quilombo. A gente dá comida, dá remédio, estamos em atividade. Apesar do poder público não ajudar muito, tem pessoas de coração bom que nos ajudam”.

 

Maria Luiza Marcelino é Mestra dos Saberes Tradicionais pela UFMG — Foto: Saberes Tradicionais UFMG/Divulgação
Maria Luiza Marcelino é Mestra dos Saberes Tradicionais pela UFMG — Foto: Saberes Tradicionais UFMG/Divulgação

Independentemente da comunidade, a questão territorial e de regularização será sempre um desafio: “A política de regularização fundiária é muito frágil, não tem recurso”, contextualiza a antropóloga Beatriz.

 

 

Rurais

 

Mas para as comunidades rurais também não é nada fácil. As maiores dificuldades estão relacionadas à infraestrutura e outros direitos básicos como saúde.

Vista aérea da Colônia do Paiol, em Bias Fortes — Foto: Associação Quilombola Colônia do Paiol/Divulgação
Vista aérea da Colônia do Paiol, em Bias Fortes — Foto: Associação Quilombola Colônia do Paiol/Divulgação

Colônia do Paiol, em Bias Fortes, tem mais de 600 quilombolas, mas está sem posto de saúde desde o primeiro ano de pandemia, quando a unidade que atendia os moradores foi fechada.

 

“Faltam as políticas para o povo quilombola ser reconhecido no município e ser aplicada em todos os âmbitos, como a saúde. Não é só uma realidade de Bias Fortes, mas de todo o Brasil”, destacou a secretária da associação responsável pelo quilombo, Maria José Franco Santana.

A antropóloga diz que situações como essa ainda são muito comuns, além da questão da regularização fundiária e do acesso às localidades, ainda precários.

“As comunidades muitas vezes ficam isoladas na época da chuva, em razão da acessibilidade, da falta de transporte público. Também a precariedade do transporte escolar, a questão da dificuldade do acesso à educação, que deveria ser uma educação diferenciada, o direito à educação etnicamente diferenciada”, explicou.

Segundo representantes da Associação Quilombola Colônia do Paiol (AQUIPAIOL), foi recentemente descoberto que a escola da comunidade já é considerada quilombola. Porém, não há estudo específico sobre a cultura local.

Essa é uma das brigas travadas pela instituição atualmente. Para diminuir a perda, a associação criou alternativas como grupos de maculelê, maracatu, congada e outros.

Quilombolas durante apresentação de maracatu em Bias Fortes

Quilombolas durante apresentação de maracatu em Bias Fortes

“Estamos buscando fazer com que aconteçam as políticas públicas aqui. E o importante é a nossa união, porque é através dela que temos grupos firmes e fortes”, destacou Maria José.

 

Em primeiro de julgar, venha conhecer, para, depois, chegar a sua própria opinião
— Presidente da Associação, Maria de Lurdes de Souza Silva

 

Quilombos e quilombolas

 

Desfile de quilombolas do Mumbuca com pelas de capim dourado — Foto: Vilma Nascimento/g1
Desfile de quilombolas do Mumbuca com pelas de capim dourado — Foto: Vilma Nascimento/g1

Os quilombos eram comunidades negras que surgiram entre os séculos XVI e XIX para que pessoas escravizadas fugissem do regime de violência imposto pela escravidão. Muitas acabaram permanecendo naqueles espaços mesmo após a liberdade.

Cem anos depois da abolição da escravidão, a Constituição de 1988 criou a nomenclatura “remanescentes das comunidades dos quilombos” e definiu que pessoas que estejam ocupando tais terras devem ter reconhecida a propriedade definitiva do espaço, “devendo o Estado emitir-lhes títulos respectivos”.

Ao longo do tempo, a expressão usada na Constituição foi substituída pelo termo “quilombola”.

*estagiário sob supervisão de Juliana Netto.

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