Com apoio do Sebrae Minas, comunidade estrutura roteiro imersivo que transforma quintais, cozinhas, engenhos e memórias em experiências turísticas
Isabel prepara quitandas no fogão à lenhaFoto: Alex de Jesus / O Tempo
Paracatu é, segundo o Censo 2022, o município com a maior população quilombola do Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste e o décimo de Minas Gerais. A apenas 4 km do Centro Histórico, o Quilombo São Domingos se abre a quem chega com um convite simples nas paredes pintadas da rua principal: “Entre, fique em paz”. Por trás do portão, um roteiro de 11 experiências leva o visitante a sentir, e não apenas observar, as marcas de mais de dois séculos de história, fé e trabalho coletivo.
Trata-se do primeiro produto de afroturismo desenvolvido pelo Sebrae Minas no estado, formatado desde 2023 em parceria com a comunidade e a prefeitura e lançado em 23 de outubro com um Catálogo de Experiências Turísticas. A proposta é clara: valorizar identidade, saberes e modos de vida enquanto gera renda e fortalece a permanência dos jovens no território.
“O afroturismo movimenta e conecta os visitantes às raízes afro-brasileiras, valorizando identidade e saberes e gerando trabalho e renda para todos os envolvidos”, afirma Patrícia Rezende, analista do Sebrae. “As experiências já existiam; nosso papel foi ajudar a planejar, precificar e estruturar para que o mercado pudesse vir comprar e vivenciar”, acrescenta.
Casa-memória
A moradia número 83 da Rua Principal virou uma Casa-Museu – Foto: Alex de Jesus / O Tempo
O passeio começa no número 83 da Rua Principal, na Casa-Museu do Quilombo São Domingos, construída com adobe há mais de cem anos por Aureliano Lopes, patriarca que viveu até os 109 anos. As paredes guardam retratos de infância, pinturas, recortes de jornais, sementes e objetos simples – utensílios de cozinha, ferramentas e bancos feitos à mão. Tudo respira história.
Quem recebe o público é Valdete e Isabel Lopes, filhas de Aureliano. Com a contação de histórias, elas convidam o público a entender melhor a dinâmica do quilombo e deixam claro por que tudo começou naquela casa.
“Essa casa é história. Tem 16 anos que ela se tornou museu. Aqui nós comemos, bebemos, contamos as lembranças e cultivamos as sementes. Meu pai dizia: ‘Vou deixar essa casa para a história do meu povo’. E assim foi”, conta Isabel.
Luíza e Valdete: “A gente descobriu que tudo o que temos importa” – Foto: Alex de Jesus / O Tempo
Ele queria preservar aquele espaço como testemunho da luta e da união familiar. Ao lado da esposa, Luíza Lopes dos Reis, que viveu 101 anos, criou dez filhos, teve 21 netos, 16 bisnetos e três tataranetos. Juntos, viveram 82 anos de casamento – e até o fim da vida mantiveram a tradição de repassar as histórias aos descendentes.
“Meu pai contava histórias até o último dia. De manhã ele falou, à tarde foi embora. Morreu como viveu: contando a história da nossa gente”, lembra Valdete, filha do casal e uma das contadoras de histórias do quilombo.
Ouro da Terra
Isabel cava a terra para colher a raiz amarela – Foto: Alex de Jesus / O Tempo
Da casa, a visita segue para o quintal, onde o solo seco guarda o açafrão, que dá nome à oficina “Ouro da Terra – Açafrão de São Domingos”. É Isabel quem comanda a atividade. No auge de seus 86 anos, com uma enxada nas mãos, Isabel cava a terra e puxa a raiz amarela, carro-chefe de vendas do quilombo.
“O açafrão é o ouro da terra. O primeiro negro que veio aqui deixou o grão e espalhou por todo lado. Até hoje ninguém deixou de plantar. A gente colhe e replanta para o ciclo não terminar. Assim como nossa história, né? Repassar para o outro é nossa forma de plantar”.
Na oficina, o visitante aprende todo o processo: a lavagem das raízes, a laminação fina, a secagem ao sol e a moagem no pilão de madeira, que ocupa o centro do quintal sob a sombra de uma grande mangueira. O cheiro do açafrão, o brilho do pó amarelo e a marca da mancha nas mãos se tornam lembranças palpáveis do saber transmitido de geração em geração.
Além do valor simbólico, o açafrão tem papel econômico: o cultivo é uma das principais fontes de renda da comunidade e reforça o potencial do agroturismo na região.
Café ancestral
Isabel prepara quitandas no fogão à lenha – Foto: Alex de Jesus / O Tempo
Nada mais mineiro do que finalizar a tarde com cheiro de queijo e fubá. Na Fábrica de Biscoitos Ouro da Roça, pão de queijo e rapadura guiam o visitante para a experiência “Café Quilombola – Sabores Ancestrais”.
Quem conduz a iniciativa é Irene dos Reis de Oliveira, presidente da Associação Quilombola e coordenadora da fábrica. Ela e suas assistentes se encarregam de ensinar o preparo do pão de queijo artesanal – que não é escaldado e é Patrimônio Imaterial do Município –, feito como as avós faziam, e do “bolo Zumbi”, receita criada em homenagem à resistência negra.
Valdete Lopes, filha de Aureliano Lopes – Foto: Alex de Jesus / O Tempo
Enquanto passa o café e assa o bolo, Irene fala da trajetória do grupo de mulheres que lidera o projeto. Hoje, a fábrica fornece produtos para escolas e oferece oficinas para estudantes, resgatando o significado das quitandas quilombolas.
“A gente descobriu que tudo o que temos importa. O turismo nos ensinou a valorizar o que já fazíamos e a transformar isso em renda e futuro para a juventude. Cada pessoa que vem aqui leva um pouco da nossa voz. Isso é o que nos mantém vivos”, ressalta.
Irene também destaca os desafios: “O trabalho coletivo exige fala e escuta. A gente precisa da união da comunidade e do respeito às nossas lideranças e ancestrais para que o projeto siga firme”.
Passado e presente
A caretagem é Patrimônio Imaterial de Paracatu – Foto: Alex de Jesus / O Tempo
Todas as experiências foram desenvolvidas ao longo de três anos, com capacitações, consultorias e oficinas de precificação e governança. Segundo Priscila Martins, da Macaúba Desenvolvimento Local, responsável pela estruturação das vivências, São Domingos simboliza o turismo contemporâneo.
“As pessoas não querem mais só contemplar. Querem sentir, aprender e se conectar com o território. São Domingos entrega uma experiência verdadeira, feita pelas mãos de quem vive a história”, enfatiza.
Viver São Domingos é mergulhar num território onde passado e presente dialogam. O visitante deixa o lugar com a sensação de ter participado de um verdadeiro rito. “Hoje, as pessoas entram pedindo bênção e licença. Isso nos encoraja e nos dá força”, reforça Irene.
No balanço final, o Quilombo de São Domingos não é só uma atração no mapa de Paracatu, é um modo de ver e fazer turismo em que a ancestralidade conduz o roteiro, a cozinha vira patrimônio e o ofício manual. Quem vive participa, aprende, retribui e ajuda a preservar a casa que Aureliano deixou “para a história do meu povo”.
Caretagem
Caretagem, manifestação cultural afro-brasileira, acontece no Carnaval e na Festa de São João
A imersão ganha corpo com “Máscaras da Caretagem – Mãos na Massa”. A artesã Cristina Coutrim, 86 anos, ensina a moldar máscaras com argila, sacos de cimento (deixados de molho por três dias) e sol. Cada pessoa pinta a sua, com bigodes, tranças e lábios coloridos.
.A oficina antecede a apresentação da caretagem, rito em louvor a São João Batista que, segundo Cristina, nasceu “com os escravizados para distrair do trabalho pesado”. “É muito importante que os mais novos aprendam a fazer as próprias máscaras, para que a tradição siga de geração em geração”, defende.
Cristina Coutrim dos Reis é educadora da oficina de caretagem – Foto: Alex de Jesus / O Tempo
Cristina Coutrim guarda a máxima que orienta a transmissão dos saberes: “Agulha puxa linha” – ou seja, os mais velhos (agulha) levam os mais novos (linha). É uma resposta à perda de práticas quando os conhecimentos ficaram “guardados” em segredo no passado.
“O mal que acontecia é que os mais velhos sabiam as coisas, mas não repassavam. Agora, a gente ensina. Cada jovem que aprende a fazer uma máscara ajuda a manter a nossa cultura viva”, relata a artesã de Paracatu.
No fim do dia, as máscaras ganham movimento na dança da caretagem, quando 24 dançarinos – metade vestida com roupas femininas, metade com roupas masculinas – desfilam pelas ruas do Quilombo São Domingos. É um espetáculo de fé, ritmo e emoção que começa na noite de 23 de junho e segue até o amanhecer do dia 24, todos os anos, passando de casa em casa. Depois de cada dança, ocorre um banquete.
Serviço:
Como chegar:
Paracatu fica a 503 km de BH. De carro, pegue a BR-040 no sentido Brasília. São ao menos sete horas de viagem. De ônibus, pela Viação Sertaneja, a passagem custa a partir de R$ 291. De avião, pegue um voo até Brasília e, de lá, carro ou ônibus até Paracatu por mais três horas.
Experiências Turísticas – Quilombo de São Domingos: Guiastur (Associação de Guias de Turismo do Noroeste de Minas): (38) 99973-3179 Receptivo local: Romário (38) 99923-8300 Redes sociais: Instagram @quilombosaodomingos Informações: Acesse Quilombo São Domingos