No evento de lançamento, com entrada gratuita, haverá bate-papo e contação de histórias com a autora. Após o lançamento, o livro também poderá ser adquirido através da loja virtual da associação Artes Sapas.
O livro oferece às crianças negras a chance de se verem refletidas não pela lente da dor, mas pela potência, beleza e pertencimento, uma forma de perpetuar uma literatura onde corpos negros apareçam de forma segura, honesta e afetuosa.
Em “Dinari”, Éle resgata memórias de uma praça de tijolinhos de sua infância, em Betim, Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), para narrar um encontro ancestral e afetuoso sob a sombra de uma árvore. Ao Brasil de Fato MG, a escritora concedeu uma entrevista em que contou todas as questões que perpassam a construção do livro.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato MG – Como decidiu escrever para crianças de uma maneira que ressoe em diversas outras pessoas e com essa força, com essa potência, de abordar questões tão sensíveis?
Éle Fernandes – Para mim, os meus trabalhos perpassam muito pela memória e pela “ancestralidade contemporânea”, como eu chamo. Eu gosto muito de me conectar com as minhas ancestrais que estão vivas. Respeito muito as que passaram e que abriram espaços e caminhos para que eu pudesse estar aqui hoje, mas preciso muito valorizar e estar perto das minhas que estão vivas.
Eu falo muito sobre isso: as minhas irmãs, as minhas tias, as minhas mães, as mulheres da minha família que me moldaram. Então, a minha escrita de modo geral, quando vou fazer uma análise do que já tenho escrito, é sempre muito nesse lugar ancestral. Mas nessa ancestralidade de quem está aqui, vou dialogando muito com ela. A partir disso, vou criando memórias também, inventando memórias. Porque, se não temos acesso de fato à nossa história, nós também podemos criar uma nova narrativa de existência.
Eu me sentia muito incomodada por não ser representada na escola ou na faculdade. Ainda não me sinto completamente, mas vou buscando referências por fora, como Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus e tantas outras contemporâneas nossas que passaram e deixaram um legado muito bonito na escrita. Vou me conectando a essas mulheres, tanto as intelectuais quanto as benzedeiras; mulheres que me criaram para formar essa memória ancestral.
E eu crio através do sonho. Sobre este texto específico, perguntei à minha mãe se foi um sonho ou se realmente tinha acontecido, porque era muito vivo para mim: essa senhora sentada. Minha mãe falou: “Olha, eu não me lembro disso ter acontecido”. Aí fiquei na dúvida se era um sonho, porque de fato eu sonhei com essa imagem, ou se era memória.
Então, entendi que foi um ancestral que me visitou e me entregou de presente essa história, vinda de um lugar que era familiar. Existe essa praça, de fato; eu convivi nela durante toda a minha infância. Então a minha narrativa está muito no lugar da memória, da ancestralidade e de pensar outras possibilidades de narrativa para a nossa existência.
E como foi o processo de escrita, desde o começo até o momento de pegar esse livro em mãos?
Foram muitas etapas. Eu escrevi esse texto em 2022. Assim que escrevi, eu sonhei. Aí fui à escolinha que fica ao lado dessa praça, chamada Nossa Senhora Aparecida. Eu fui criada toda a infância nessa região e meu sobrinho estava estudando lá. Fui buscá-lo um dia e tive esse sonho. Pensei: “Você precisa escrever”. Sentei e escrevi um rascunho.
Outra referência que tenho é Manoel de Barros. Gosto muito da forma como ele trabalha com a natureza, com as “pequenezas e grandezas”, com os insetos e os animais. Também é uma inspiração para mim. Fui buscando essas referências, escrevivências da Conceição Evaristo, o próprio Manoel e Mia Couto, de quem gosto muito dos contos. Escrevi.
Aí chamei a Suzane Lopes. A ilustração dela apareceu no meu Instagram; eu nunca tinha ouvido falar dela na vida, não sabia da sua existência. Cara de pau que sou, fui lá e falei: “Oi, tudo bem? Meu nome é tal, escrevi um texto e queria te mostrar, porque acho que suas ilustrações vão conversar muito com ele”. Fizemos uma reunião e ela amou o texto. Falou: “Que lindo, vamos seguindo”. Eu disse que não queria fazer sem verba, queria poder remunerá-la pelo trabalho, então deixaria o projeto guardado até que ele ressurgisse.
No ano passado, consegui através da Lei Aldir Blanc escrever o projeto e captar recursos para realizá-lo. Chamei a Suzane, mas eu não estava satisfeita apenas com o livro físico. Estudando sobre cultura do acesso e acessibilidade, percebi que precisava de um vídeo-livro com acessibilidade; precisava expandir para outras pessoas, não podíamos ficar limitados ao livro físico.
Enquanto construímos o livro físico, com a Suzane nas ilustrações e a Geovana me ajudando na revisão, eu revisitava o texto e as memórias. Paralelamente, estávamos com mentoria de cultura do acesso. Começamos o trabalho com Libras, áudio e audiodescrição (AD), para compreendermos o que é a AD de fato, não apenas ler o livro e colocar no YouTube. Foi uma construção muito coletiva.
Paralelo a isso, eu também estava lançando a editora da qual faço parte. Sou presidente de uma associação e, como estamos fazendo tantos livros, decidimos fazer uma editora e colocar o nosso selo. Vamos abrir as nossas próprias janelas e portas. Então, a construção da editora nasceu junto com a do livro.
A editora é a “Arte Sapas”. Nós temos uma associação que possui vários eixos: a nossa loja (Loja Brechas), a editora (Arte Sapas), o nosso ateliê de serigrafia e a coletiva “Fancha Ecléticas”, que costuma realizar alguns eventos e festivais. Inclusive, estávamos mês passado com o festival “Fafan”.
Você mencionou a referência de Manoel de Barros sobre a questão da pequenez e da grandeza, algo que aparece muito no texto e na sua fala sobre a ilustração. No texto, você menciona a personagem caminhando e encontrando coisas grandes e pequenas. Quando aparece a imagem da senhora, ela surge em uma proporção grande e depois em uma proporção bem menor, para dar essa ideia que temos da infância. Você mencionou que, quando voltamos aos espaços que frequentamos na infância, ficamos boquiabertos, pois percebemos que aqueles espaços eram pequenos, embora na nossa memória fossem gigantescos. Parece que isso se deu muito bem na articulação entre texto e ilustração, que se complementam para criar uma história convergente. Essa revisitação da infância ditou essa relação de pequenez e grandeza, além da inspiração em Manoel de Barros?
Para mim é magnífico. Se você olhar a praça hoje, eu fui lá e tirei fotos, é muito parecido com a forma que ela desenhou, e eu só mostrei as fotos para ela depois que as ilustrações já estavam prontas. A Suzane foi extremamente generosa ao olhar para o texto e construir. A partir do momento em que ela ilustra, ela também vira autora; ela está construindo uma narrativa própria.
Eu dava algumas referências, dizia que queria algo do universo, do fundo do mar. Gosto muito dessa relação de grandeza e pequeneza. Inclusive, foi por falar tanto disso que as pessoas me indicaram o Manoel de Barros. Quando a Suzane pega o texto, ela consegue imprimir uma essência muito bonita, brincando com esses elementos e com a personagem Dinari. Dei uma entrevista para uma criança de 4 anos, a Maria, e ela me perguntou: “Por que a Dinari está vestida de astronauta?”. Eu expliquei que era inspirada na primeira astronauta negra que tivemos no mundo. A potência das perguntas das crianças me revela que as ilustrações e o texto deram certo. A generosidade fez com que eles casassem de forma poética e respeitosa.
Você faz um diálogo interessante entre a infância e o envelhecer: uma criança encontrando uma mulher muito mais velha. O que você queria criar com isso e qual foi a resposta do público adulto?
Ainda não sei dizer, na verdade. Poucas pessoas acessaram o livro até agora; basicamente vocês da imprensa. Minha mãe ficou muito emocionada e chorou. Eu a convidei para fazer um ensaio fotográfico comigo; ela não tinha visto o livro ainda, viu no dia do ensaio. Ela chorou muito lendo e tirando as fotos. Ela disse: “Nossa, me lembrou muito a nossa infância, lembrou muito a mim e a você”. Fiquei feliz, pois o caminho é por aí.
As poucas respostas que tive foram interessantes. Uma amiga minha, mais velha, disse que aquela senhora é a própria Dinari. Eu deixei isso subentendido; gosto da ideia de que, no final, você não sabe ao certo se esse encontro é com a própria Dinari mais velha, se é com uma ancestral, ou se são as duas coisas. É um encontro ancestral, mas que pode ser o encontro consigo mesma. Estamos falando do processo de envelhecer dos nossos corpos pretos. É muito bonito saber que podemos envelhecer com dignidade. Quando coloquei o envelhecer no livro, foi para trazer o respeito à nossa ancestralidade em vida.
E tem a questão do cabelo também, não é?
Exato. E isso é tão bonito porque fiz minha transição capilar aos 18 anos; vou fazer 30 agora. Minha mãe e minhas tias tiraram a química recentemente e estão com seus “blackinhos”. Acho valioso oferecer uma narrativa para mulheres e crianças que estão passando hoje pelo o que passei há 12 anos. É a importância da aceitação, de se olhar no espelho e se reconhecer.
Você passou pelo teatro, agora está se formando em psicologia e também atua na produção cultural. De que maneira essas três áreas ajudam a construir o seu texto?
O teatro foi o meu primeiro acesso direto à arte. Depois descobri que meus pais, mesmo sem parecer, estavam me enchendo de conhecimento através da música e da cultura, mas na época eu não entendia. Eu era uma criança muito agitada, daquelas que não paravam quietas, que queriam propor, liderar e participar de todos os grupos. Chegou um momento em que disseram: “Essa menina precisa ir para o teatro”.
Passei por escolas em Betim e em Belo Horizonte, como o Palácio das Artes e o Teatro Universitário. Essas escolas ampliaram meu olhar artístico. Eu sempre escrevi, mas achava que minha escrita era “favelês” ou “pretuguês” e que não teria espaço. Continuo achando que minha escrita vem desse lugar, mas percebi no teatro que a escrita podia ir para a cena.
Paralelamente, sempre quis fazer psicologia. Quando me formei na UFMG, tentei o curso, mas por várias questões precisei voltar para Betim e não consegui na época. Agora, onde trabalho, estou conseguindo estudar. A psicologia amplia o nosso olhar para o mundo e para o outro. Se o teatro e a escrita me fazem revisitar memórias, a psicologia amplia meu olhar para as “infâncias”, no plural. Não são apenas as minhas narrativas; existe uma possibilidade gigantesca de infâncias, por isso chamo de “geografia das infâncias”.
É desafiador estar na universidade; ainda é um lugar muito elitista e branco, mas minha forma de encontrar espaço é juntando essas três áreas e o trabalho social que faço na associação. É ouvir novas histórias e pensar que as geografias das infâncias são múltiplas.
Trazer Betim para a sua narrativa é muito interessante. Já conversei com outras pessoas da área cultural sobre como os editais de cultura estão muito localizados nas capitais. Fazer isso é deslocar o olhar. Como será a distribuição do livro?
Vou distribuir 300 exemplares para a rede pública. Foi um desafio. Todo mundo perguntou: “Como assim você não vai fazer o lançamento na sua cidade?”. Mas Belo Horizonte é uma cidade que me acolheu e me respeita. Eu escrevi esse projeto em Betim, inclusive, mas tive uma negativa aqui. Depois consegui aprovação em outro lugar com uma recepção muito bonita, justamente falando sobre a necessidade de discutir a autoestima de crianças negras nas escolas.
Decidi valorizar minha história em Betim, mas ir para BH, onde tenho acolhimento, rede de apoio e pessoas que acreditam no trabalho de um escritor. Trabalho com teatro e produção há mais de 13 anos, mas este é o meu lançamento como escritora para a sociedade. Quero ser vista dessa maneira: eu escrevo também. O meu “pretuguês” e o meu “favelês” são tão bonitos e potentes quanto os de qualquer outra escritora.

