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Povo indígena Kaxixó, guardião dos cerrados

03/07/2018

Frei Gilvander Moreira

Lideranças Kaxixó: Zezinho e Djalma (já falecidos) participando da “Marcha Indígena – 500 anos de Resistência” em Belo Horizonte no ano 2000. Foto: A. Baeta.

  Ao som de assobios imitando pássaros dos cerrados, em um toré (dança de roda), cantando “Jaci rerê, jaci rará (bis). Sou índio Kaxixó, na luta vou entrar (bis). Conquistar a nossa terra e pra sempre aqui morar (bis). Com muita coragem e vontade de vencer (bis). Sou índio e vou à luta pra vitória a gente ter (bis). Esquecemos a tristeza batendo maracá (bis). Cantando e dançando para nossa festa animar (bis). Jaci rerê jaci rará (bis) …”, iniciamos uma  Roda de Conversa com indígenas do Povo Kaxixó na sede do CEDEFES (Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva), em Belo Horizonte, MG, dia 30 de junho de 2018. Foram mais de cinco horas de retrospectiva de uma luta justa, necessária e legítima: a do Povo Indígena Kaxixó.

A Aldeia Kaxixó é composta por quatro localidades: Capão do Zezinho e Criciúma, na margem esquerda do rio Pará, município de Martinho Campos; Fundinho e Pindaíba, na margem direita do mesmo rio, município de Pompéu, no centro-oeste de Minas Gerais, no baixo rio Pará, um dos grandes afluentes do rio Francisco, que irriga 15 municípios antes de desaguar suas águas no rio São Francisco.  Os Kaxixó estão atualmente encurralados em aproximadamente 20 hectares de seu território, sendo que, segundo os estudos técnicos, o Povo Kaxixó tem direito a 5.411 hectares de território. “Tem direito a um território maior, mas o território de 5.411 hectares foi o que a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) aceitou com base nos muitos estudos feitos”, alerta Marilda Magalhães.

Segundo as diversas pesquisas realizadas pela equipe do CEDEFES, composta por antropólogas, indigenistas, sociólogos, historiadoras, arqueólogas e engenheiras agrônomas, em 1602, uma das expedições das Entradas e Bandeiras deportou 2 mil índios do centro-oeste mineiro para o litoral do Rio de Janeiro. Mesmo massacrado e vilipendiado, o povo Kaxixó resiste há séculos, no centro-oeste de Minas Gerais. “… os fazendeiros proibiam a gente de dizer que éramos índios Kaxixó. Roubaram nossa terra, nossa língua e nossa religião” – denunciava o cacique Djalma, Kaxixó de uma extraordinária sabedoria. Quinze sítios arqueológicos foram encontrados no seu território ainda em poder de empresas e latifundiários. Os primeiros conflitos de terra com latifundiários teriam ocorrido já no século XVIII com o povoamento e abertura de grandes fazendas na região de Pitangui. O primeiro grande perseguidor dos indígenas nesta época teria sido o potentado capitão Inácio de Oliveira Campos. Nesta ocasião, muitos indígenas teriam sido expulsos, outros assassinados, e os que ficaram foram obrigados a trabalhar nas fazendas, em situação análoga à de escravidão, diríamos em linguagem de hoje. Segundo o saudoso Cacique Djalma Kaxixó: “tentaram esbagaçar os Kaxixó…” (relato de 1999).

As perseguições incessantes aos Kaxixó foram tamanhas, que, inclusive, foram terminantemente proibidos pelos fazendeiros de dizer que seriam indígenas, sendo que na década de 1970, resistiam apenas duas famílias Kaxixó em sua atual área, mas hoje somam 29 famílias com cerca de cem indígenas. Somente em 1986, com ameaças de dissolução completa de sua base e referência territorial, é que os Kaxixó solicitaram apoio ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Pompéu e à Comissão Pastoral da Terra (CPT), e quando questionados sobre a sua relação com a terra se apresentaram como indígenas Kaxixó, revelando a sua memória sufocada e a sua identidade. Foi por meio de estratégias de silêncio e de sua invisibilidade junto à sociedade nacional e aos poderosos da região que conseguiram resistir a um processo contínuo de perseguições e proibições. Nessa época, o CEDEFES iniciou os primeiros estudos técnicos sobre esta comunidade indígena, visando apoiar a sua organização, luta por afirmação de sua identidade e conquista de seus direitos.

Todavia, a demarcação do território Kaxixó continua bloqueada por demanda judicial na Justiça Federal, por questionamentos infundados por parte das prefeituras de Martinho Campos e Pompéu, pelo Governo de Minas Gerais e pela Associação dos Latifundiários da região. Essa aliança, na prática, de duas municipalidades e do Governo de Minas com latifundiários e grandes empresas contra o Povo Indígena Kaxixó demonstra que, de fato, o Estado Brasileiro é cúmplice do sistema do capital e não atua para gerir o bem comum, mas se verga diante dos mega-interesses econômicos de grandes empresas que continuam se apoderando do território do Povo Kaxixó. No Governo de Minas, o PSDB impugnou a demarcação do território Kaxixó e o PT (Governo de Fernando Pimentel) mantém há três anos e meio a posição do PSDB contra o Povo Indígena Kaxixó. Até quando os prefeitos de Martinho Campos e Pompéu e o Governo de Minas Gerais vão continuar do lado dos latifundiários e contra a demarcação do território do Povo Indígena Kaxixó?

Ao apresentar o Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Kaxixó (PGTA), a agrônoma Marilda Magalhães, do CEDEFES, frisou: “O povo indígena Kaxixó é guardião dos cerrados”. De fato, sua alimentação, adereços, canções e jeito de ser-tão refletem a alma dos cerrados. Em um contexto de imensa devastação dos cerrados, demarcar o território Kaxixó tornou-se necessidade urgente e não pode mais ser postergado. Os povos indígenas não querem apenas dançar e serem estereotipados, mas querem falar, serem ouvidos e respeitados pelos não indígenas, pois não toleram mais o rolo compressor do Estado acumpliciado com a elite dominante.

Mais de cem povos indígenas habitavam o estado de Minas Gerais. Atualmente 18 povos, entre os quais, os Xakriabá, Aranã, Maxakali, Xukuru-Kariri, Pataxó Hahahae, Kamakã, Puri, Pankararu, Tuxá, Krenak, Mokurin, Catu Atu Araxá, Xukuru-kariri, Kiriri, Guarani, Karajá, canoeiros e Kaxixó e outras etnias dispersas nos centros urbanos – estão na luta pela retomada de seus territórios  e para que sejam demarcados de forma integral. Há quase trinta anos, o CEDEFES, a CPT e o CIMI acompanham a luta do Povo Kaxixó, contribuindo para a organização da história, da cultura e preservação dos testemunhos arqueológicos que existem na área Kaxixó. Alenice Baeta, pós-doutora em Arqueologia, mostrando artefatos cerâmicos encontrados no território Kaxixó afirma em seus estudos: “Está comprovada a presença de diversos povos indígenas na região dos Kaxixó há pelo menos 2 mil anos”. Ao narrar a perseguição atroz e as ameaças incessantes de morte sofrida pelos Kaxixó, o cacique Nilvando apontou a força do resgate da história a partir dos oprimidos: “Ao levantarmos a nossa história, nos levantamos também”.

Referências

CALDEIRA, A. V.; BAETA, A. M.; MATTOS, I. M. & SAMPAIO, J. A. L., Kaxixó: quem é este povo. Belo Horizonte: CESE/CEDEFES/ANAI, Janeiro de 1999.

CEDEFES. Plano de Gestão Territorial e Ambiental na Terra Indígena Kaxixó – PGTA. PNUD/ISPN/FUNAI. Setembro de 2016.

Belo Horizonte, MG, Brasil, 03 de julho de 2018.

Roda de Conversa no CEDEFES sobre: “Povo Indígena Kaxixó: retrospectiva de um processo de luta”. Foto: A. Baeta

Obs.: Os vídeos, abaixo, ilustram o texto, acima.

1 – Caxixó – O Segredo Encantado – parte 1

2 – Caxixó – O Segredo Encantado – parte 2

3 – Filme Casca do Chão – Povo Kaxixó

 

[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG.

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