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Índios de Minas rechaçam pecha de preguiçosos e afirmam que trabalham, mas não para enriquecer

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Educação. Em projeto educacional, índios Pataxó levam cultura tradicional para escolas da capital

 

“Indígena é um nome que inventaram para a gente porque tínhamos o olho puxado, como na Índia. O que nós somos, na verdade, é povo da floresta, descendentes dos primeiros povos brasileiros”, diz a Kaxixó Liderjane Gomes da Mata, 39. Essa consciência sobre sua origem e sua identidade é cada vez mais forte entre as comunidades nativas e faz crescer o número de pessoas que se autodeclaram pertencentes a esses grupos. Mas ainda falta muita informação sobre eles entre os “brancos”, termo sempre usado por eles para separar indígenas do restante da população. O desconhecimento leva a preconceitos tão arraigados que se tornam barreiras e geram conflitos.

“A nossa história não começou em 21 de abril de 1500. Ela vem de muitos anos atrás. Enquanto outros países estariam procurando informações sobre seus ancestrais, antepassados, nós não valorizamos, tentamos camuflar. Mas eles são nossos povos primeiros, devemos respeitá-los”, afirma a mestre e pedagoga da PUC Minas especializada em educação indígena Sandra Maria Rodrigues de Morais.

Estereótipo. O clássico retrato do índio preguiçoso também continua no imaginário de muita gente. “Falam que a gente não quer trabalhar, mas não é verdade. Nós trabalhamos e já fomos até escravizados. Mas o índio não pensa em trabalhar para enriquecer, ele trabalha para sua subsistência”, diz o vice-cacique Altair Teodoro da Silva Kaxixó, 48, da comunidade Capão do Zezinho, em Martinho Campos, na região Centro-Oeste de Minas.

No local vivem cerca de cem pessoas, muitos aposentados e outros que trabalham no centro de saúde e na escola. Outros são funcionários de um fazendeiro vizinho, o único no entorno que não apoia o movimento ruralista contra os índios. Alguns ainda prestam serviços domésticos e de construção civil nas cidades próximas.

“O índio trabalha, e muito, são contemporâneos como a gente, precisam trabalhar. Cada povo indígena é muito diferente, alguns assimilaram a comunidade em volta, foram para o mercado de trabalho, outros vivem mais isolados no campo”, explica o historiador e indigenista da Fundação Nacional do Índio (Funai) Pablo Camargo. Há relatos de boicote por parte do comércio em algumas cidades do Estado, onde se cobra mais caro do índio até por um prato de comida.

Cultura. A reportagem acompanhou um grupo de índios Pataxó em um colégio do Barreiro, na capital, onde eles desenvolvem o projeto Cultura Indígena nas Escolas, como forma de quebrar o preconceito. Ao chegarem, houve muita curiosidade dos alunos e alguns bateram com a mão na boca, única referência indígena para muitos, mas que para os nativos significa chamar para a briga.

“Somos um país extremamente sem memória. É preciso fazer um ‘letramento racial’”, diz a índia Kambiwa Avelin Buniacá, socióloga e representante do Comitê Mineiro de Apoio às Causas Indígenas.

Crítica. Se a tradição dos povos não é respeitada, a modernização também não. “Quiseram tanto impor a cultura do branco, e agora dizem que a gente não é índio se tiver casa, celular, TV”, diz Altair Kaxixó.


SAIBA MAIS

Universidade. A presença de indígenas no ensino superior do país cresceu nos últimos anos. Segundo o livro “Povos Indígenas no Brasil 2011/2016”, em 2004 a estimativa era de 1.300 deles, basicamente em universidades particulares mediante auxílio financeiro. Em 2016, o número saltou para 10 mil.

Benefício. Houve também aumento da participação de famílias indígenas no Bolsa Família. Em 2010, 66.168 famílias obtiveram o benefício. Em maio de 2016, foram 112.081.

CPI. Criada por deputados ruralistas, a investigação pediu na semana passada o indiciamento de antropólogos e supostos falsos índios por argumento de fraudes no processo de demarcação de terras e no uso de recursos destinados às comunidades.

Funai. Em janeiro deste ano, foi publicada a portaria 68, que cria uma nova estrutura na Funai para acompanhar o processo de demarcação de terras, o que, para especialistas, vai dificultar a conclusão dos cerca de 280 processos de demarcação em andamento. Desde 2011, ao menos oito presidentes da Funai deixaram o cargo.

FOTO: LINCON ZARBIETTI
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Engajamento. Mulheres da tribo Kaxixó se reúnem para rezar e falar de suas conquistas e aflições


DEGRADAÇÃO

Rio não tem mais peixe, e água chega de caminhão-pipa

Para chegar a Capão do Zezinho, onde vivem cerca de cem Kaxixó, em Martinho Campo, na região Centro-Oeste de Minas, é preciso atravessar plantações de eucalipto a perder de vista. Para os indígenas, a monocultura que tomou espaço da floresta é uma das causas da seca dos córregos e da baixa do rio Pará, onde não se encontram mais peixes como anos atrás. O poço artesiano que abastece a comunidade é insuficiente, e, nos últimos dias, a água veio de caminhão-pipa mandado pela prefeitura, um contraste com o modo de vida tradicional.

Mas é só chegar a Capão do Zezinho para encontrar um pequeno reduto da diversidade de plantas e bichos. As casas ficam próximas umas das outras, só uma ou outra com muro, as demais apenas com uma cerca baixa para que as galinhas não entrem em casa. “Aqui não tem isso de ‘meu terreno’, o que tem no meu quintal é de todo mundo”, relata Liderjane Gomes da Mata, 39, que tira do pé bananas e mexericas frescas.

Ela tem dezenas de plantas frutíferas e medicinais, que por vezes ficam com as flores amareladas por conta do agrotóxico usado nos eucaliptos do entorno.

Muitos Kaxixó não têm traços característicos dos índios, mas eles dizem que isso é resultado do relacionamento de seus antepassados com filhos e filhas de fazendeiros e de estupros sofridos por mulheres.

Antepassados. Os moradores de Capão do Zezinho ainda preservam a casa do cacique Djalma, que morreu há sete anos e foi um dos líderes do movimento de reconhecimento dos Kaxixó. Outra memória viva é dona Josina Maria de Jesus, 93, chamada carinhosamente de “vovó” por todos.

Toda terça-feira, tem o encontro das mulheres guerreiras no lugar onde passava um córrego que secou. Elas falam de suas aflições e conquistas e rezam.

Oficial. Os Kaxixó foram reconhecidos como grupo indígena em 2002. Eles vivem hoje em uma área de 4.000 hectares (ha). Outros 5.411 (ha) já foram demarcados e aguardam homologação.