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Nota de Falecimento: Maria Clara Migliacio (Caia)

08/08/2017

Sociedade de Arqueologia Brasileira - SAB

Fonte:http://www.sabnet.com.br/informativo/view?TIPO=1&ID_INFORMATIVO=603
Com grande pesar, a Sociedade de Arqueologia Brasileira-SAB informa o falecimento de Maria Clara Migliacio (Caia), ocorrido no último, dia 06, em Brasília.
A SAB lamenta a perda de uma das mais expressivas lutadoras pelos direitos das comunidades tradicionais e pela preservação do patrimônio arqueológico.
Maria Clara Migliácio, presente!
por Jorge Eremites de Oliveira
Foi com muita tristeza que recebemos a notícia, neste último domingo, dia 06/08/2017, do falecimento da amiga Maria Clara Migliácio, conhecida por muitos de nós pelo carinhoso apelido de Caia. Recebemos a notícia de amigos em comum que temos em Cuiabá, como o Francisco Forte Stuchi, os quais também estavam chocados com o ocorrido. Definitivamente, não esperávamos por isso.
Na hora em que soube do seu falecimento, pensei comigo que somos tão poucos na arqueologia pantaneira e agora seremos menos ainda. Também rememorei sobre quando a conheci, em Cuiabá, num daqueles dias quentes em que trabalhava com afinco no IPHAN e estava entusiasmada com a possibilidade de fazer mestrado em arqueologia no MAE/USP. Vinha da arquitetura, havia morado entre os Katitaurlu (Nambikwara) do Sararé, no vale do rio Guaporé, trabalhava no IPHAN em Mato Grosso e tinha sido fisgada pela arqueologia de tal modo que isso marcaria para sempre a sua vida profissional. Dito e feito. Aproximou-se de Irmhild Wüst, a primeira etnoarqueóloga brasileira, e juntas foram à porção setentrional do Pantanal e lá iniciou suas pesquisas arqueológicas. Era amável, generosa e paciente com muitos jovens arqueólogos, os quais se lembram dela com carinho e afeto.
Suas pesquisas no Pantanal, especialmente no município de Cáceres, resultaram em dois relevantes trabalhos para a compreensão da arqueologia e da história dos povos indígenas naquela que é a maior planície de inundação do globo: a dissertação de mestrado denominada A ocupação pré-colonial do Pantanal de Cáceres, Mato Grosso: uma leitura preliminar (MAE/USP, 2000) e a tese de doutorado intitulada O doméstico e o ritual: cotidiano Xaray no Alto Paraguai até o século XVI (MAE/USP, 2006).
Além disso tudo, Caia foi uma árdua defensora do patrimônio cultural, sobretudo o arqueológico, e uma mulher sensível e preocupada com a luta dos povos indígenas no Brasil. Também foi a criadora do Instituto Homem Brasileiro, ligado à arqueologia e à museologia, e atuou com brilhantismo no campo da educação patrimonial e junto ao Centro Nacional de Arqueologia do IPHAN.
Uma amiga historiadora que temos em comum, a professora Thereza Martha Presotti, da UFMT, disse-me no domingo passado que a Caia havia se tornado uma estrela a iluminar as águas do Pantanal dos Xaray. Oxalá que também seja uma estrela a iluminar a arqueologia brasileira em tempos difíceis e que seu exemplo nos inspire a seguirmos em frente.
Nossos sinceros sentimentos às amigas, aos amigos e aos familiares da Caia, nossa estrela Xaray.
Maria Clara Migliácio, presente!