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Direitos, resistências e visibilidade dos povos tradicionais na Roça Grande, que é Belo Horizonte. Chega de Intolerância!

30/10/2018

http://www.cptmg.org.br/portal/direitos-resistencias-e-visibilidade-dos-povos-tradicionais-na-roca-grande-que-e-belo-horizonte-chega-de-intolerancia/

No Seminário “ROÇA GRANDE – Natureza Cultura da Cidade”, organizado pelo Núcleo de pesquisa KAIPORA – Laboratório de Estudos Bioculturais -, Unidade Ibirité da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) e pelo Grupo de Estudos Alteridade e Cidade, da UFMG, que ocorreu nos dias 25 e 26 de Outubro de 2018, em Belo Horizonte, aconteceram várias atividades e rodas de conversas sobre agroecologia, bem como sobre a valorização dos ofícios, saberes, sabores e fazeres dos Povos Tradicionais.

Destacamos a participação de integrantes da Comunidade Indígena Kiriri, que expuseram durante a mesa sobre ‘Memória das Águas’, coordenada pela equipe do Projeto Manuelzão/UFMG, a necessidade de solução justa e pacífica urgentemente da questão da terra onde eles habitam na região de Rio Verde, em Caldas, sul de Minas Gerais, que seria atualmente de propriedade do Estado, todavia ‘doada’ anos atrás para a UEMG, que já possui um campus nessa região. Espera-se que a sinalização por parte da própria UEMG por meio de notícia divulgada no mesmo dia desse evento por sua reitoria realmente proceda, suspendendo inclusive processo judicial de reintegração de posse, indicando que não há mesmo interesse por parte desta respeitada instituição fazer qualquer obra ou projeto nesta propriedade, abandonada há anos, destravando finalmente o processo de regularização fundiária a favor da Comunidade Indígena Kiriri de Caldas.

Imagem: A liderança indígena Carliusa Kiriri dando palestra sobre a ‘Memória das Águas’ no Seminário ROÇA GRANDE da UEMG, em Belo Horizonte, MG, onde também relatou a história da luta do Povo Indígena Kiriri pela terra que habitam, em Caldas, sul de Minas. Foto: Alenice Baeta, 26/10/2018

Nesta mesma mesa foi lida ainda a ‘Carta de Jequitibá’, elaborada na ocasião do FestiVelhas 2018 que ocorreu nos dias 6 e 7 de Setembro de 2018, no município Jequitibá, MG, onde foram  focalizados os povos tradicionais da bacia dos Rio das velhas e suas relações com o território e as águas. Este documento é emblemático, pois esta importante entidade e o Instituto Guaicuy – SOS Rio das Velhas – que os assinam formalizam o apoio à luta e aos seus direitos, se tornando mais uma entidade parceira nesta justa luta!

Na parte da tarde, houve ainda encontros que abordaram a segurança alimentar dos povos tradicionais com a presença de raizeiras, benzedeiras e parteiras. Uma segunda mesa contou com palestras de lideranças que atuam na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), tais como, o vice-cacique Merong Kamacã Mongoió, do Sr. Maurício Moreira da comunidade quilombola Mangueiras, das Mãezinhas Rita, Sônia e Dalva representando os povos de terreiro, integrantes da Associação dos Carroceiros e Carroceiras Unidos de Belo Horizonte e Região Metropolitana, além de dois revitalizadores de nascentes e da natureza, no caso, que atuam na bacia do córrego Navio Baleia (Belo Horizonte), o Sr. Nonô e a artista plástica Sra. Mércia Inês do Nascimento, autora da obra: “Resgate Histórico do córrego Navio Baleia”, de 2009. Nesta oportunidade, foram expostas várias telas confeccionadas em ponto cruz, feitas pela artista que ilustram diversos tipos de cenários urbanos, algumas denunciam a degradação ambiental e cultural da capital.

Imagem: Mesa Redonda sobre Povos Tradicionais com representantes dos povos Indígenas, quilombolas, povos de terreiros e carroceiros. Foto: Alenice Baeta, dia 26/10/2018.

Foi apresentado também o modo de vida dos carroceiros e carroceiras como integrando o patrimônio biocultural das cidades e, especificamente, de Belo Horizonte. O ofício dos carroceiros implica em um profundo conhecimento dos cavalos. A etnoecologia carroceira inclui, entre outros, saberes relacionados às madeiras mais adequadas para fabricação das carroças, uso de plantas medicinais, benzeções e outras formas de cuidado da saúde dos animais, bem como o manejo e a coleta de diversas espécies de gramíneas de crescimento espontâneo nas cidades que compõem parte da dieta oferecida aos cavalos. O modo de vida tradicional de carroceiros e cavalos também envolve formas especificas de sociabilidade, tais como as catiras e as cavalgadas, baseadas na reciprocidade, parentesco e afeto. A luta por respeito à sua história milenar, à sua tradição e à sua dignidade é uma das bandeiras dos carroceiros e carroceiras da RMBH, que estão se movimentando nas cidades no sentido de organizar as suas associações comunitárias ou coletivas, reivindicando oficialmente o seu reconhecimento como povo tradicional a partir de políticas que visam proteger todos os processos acumulativos dos grupos portadores de referência à identidade e à memória.

Os representantes do Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (CEDEFES) e da Comissão Pastoral da TERRA (CPT) que participaram deste profícuo debate reafirmaram a necessidade da organização e da luta dos povos tradicionais.  Reiteraram as questões e dificuldades dos povos quilombolas em contexto urbano, tão bem explicitadas pelo líder Maurício cuja família habita tradicionalmente o Quilombo Mangueira, na Mata da Izidora, na capital mineira. Da mesma maneira, reforçaram a reveladora mensagem do indígena Merong, nascido em Contagem, MG, que contou a saga do seu grupo familiar Mongoió na Bahia e depois em Minas Gerais, até tomarem a justa decisão da retomada de uma terra ociosa e abandonada situada em uma fazenda da FUCAM, do Estado no município de Esmeraldas, RMBH. “Precisamos de paz para viver nesta terra… plantar, colher e viver a nossa cultura milenar. É o que queremos…”, comenta Merong.

Reiteraram o grande absurdo no que se refere às denúncias de violências e intolerância relatadas pelas representantes dos povos de terreiros sobre invasões dos seus campos sagrados, desrespeitando os seus rituais e vestes, inclusive com a subtração de atabaques e objetos religiosos, o que é inaceitável e, por isso, repudiamos com veemência. O Brasil é estado laico com liberdade religiosa garantida na Constituição Federal. Logo, discriminar e violentar as religiões de matriz afrodescendentes é inadmissível.

Por último, parabenizamos a organização e a legitimidade dos trabalhadores carroceiros e a sua importância para a história da cidade de Belo Horizonte.

O Grupo de Estudo Kaipora, da UEMG, realizou um evento muito importante, que foi na verdade um verdadeiro encontro de forças vivas tradicionais e do BEM-VIVER, buscando dar visibilidade a elas, e aos seus direitos.